28/07/2008

sobre as saudades e os musicos tupinambá


trecho da obra de
GABRIEL SOARES DE SOUSA:

"TRATADO DESCRITIVO DO BRASIL EM 1587"

C A P Í T U L O CLXII

Que trata das saudades dos tupinambás, e como choram e cantam.
Costumam os tupinambás que vindo qualquer deles de fora, em
entrando pela porta, se vai logo deitar na sua rede, ao qual se vai logo
uma velha ou velhas, e põem-se em cócaras diante dele a chorá-lo em
altas vozes; no qual pranto lhe dizem as saudades que dele tinham, com
sua ausência, os trabalhos que uns e outros passaram; a que os machos
lhes respondem chorando em altas vozes, e sem pronunciarem nada, até
que se enfadam, e mandam às velhas que se calem, ao que estas
obedecem; e se o cho-, rado vem de longe, o vêm chorar desta maneira
tôdas as fêmeas mulheres daquela casa, e as parentas que vivem nas
outras, e como acabam de chorar, lhe dão as boas-vindas e trazem-lhe de
comer, em um alguidar, peixe, carne e farinha, tudo junto posto no chão,
o que ele assim deitado come; e como acaba de comer lhe vêm dar as
boas-vindas todos os da aldeia um e um, e lhe perguntam como lhe foi
pelas partes por onde andou; e quando algum principal vem de fora,
ainda que seja da sua roça, o vêm chorar todas as mulheres de sua casa,
uma e uma, ou duas em duas, e lhe trazem presentes para comer,
fazendo-lhe as cerimônias acima ditas.
Quando morre algum índio, a mulher, mãe e parentas o choram
com um tom mui lastimoso, o que fazem muitos dias; no qual choro
dizem muitas lástimas, e magoam a quem as entende bem; mas os
machos não choram, nem se costuma entre eles chorar por ninguém que
lhes morra.
Os tupinambás se prezam de grandes músicos, e, ao seu modo,
cantam com sofrível tom, os quais têm boas vozes; mas todos cantam
por um tom, e os músicos fazem motes de improviso, e suas voltas, que
acabam no consoante do mote; um só diz a cantiga, e os outros
respondem com o fim do mote, os quais cantam e bailam juntamente
numa roda, na qual um tange um tamboril,
em que não dobra as pancadas; outros trazem um maracá na mão, que é
um cabaço, com umas pedrinhas dentro, com seu cabo por onde pegam;
e nos seus bailes não fazem mais mudanças, nem mais continências que
bater no chão com um só pé ao som do tamboril; e assim andam todos
juntos à roda, e entram pelas casas uns dos outros; onde têm prestes
vinho, com que os convidar; e às vezes anda um par de moças cantando
entre eles, entre as quais há também mui grandes músicas, e por isso
mui estimadas.
Entre este gentio são os músicos mui estimados, e por onde quer
que vão, são bem agasalhados, e muitos atravessaram já o sertão por
entre seus contrários, sem lhes fazerem mal.